Exegese Mateus 10.16-23
Word Biblical Commentary
Tradução
16Eis, eu estou enviando vocês como ovelhas no meio de lobos. Sede astutos como serpentes, porém, como pombas inocentes.
17Sejais cautelosos das pessoas. Pois alguns vos entregarão aos sanhedrins, e eles irão açoitar vocês em suas sinagogas. 18E por minha causa vocês serão levados à presença de governadores e reis para testemunho a eles e aos gentios. 19Mas quando eles entregarem vocês, não se preocupem sobre como ou mesmo o que vocês deverão dizer. Pois o que vocês deverão dizer será dado a vocês naquela hora. 20Pois não serão vocês quem estarão falando, mas será o Espírito do Pai de vocês quem falará através de vocês.
21Mas irmão irá entregar irmão à morte, e um pai a seu filho, e filhos haverão que se levantarão contra seus progenitores e colocarão eles à morte. 22 E vocês serão odiados por todos por causa do meu nome. Mas aquele quem resistir até o fim é que será salvo.
23 Mas quando eles perseguirem vocês nesta cidade, fujam para uma outra. Pois verdade eu digo a vocês, vocês não terão completado todas suas missões nas cidades de Israel antes que venha o Filho do Homem.
Forma/Estrutura/Definição
A. O final da passagem anterior deixa claro que alguns rejeitarão a mensagem do reino. Aquela era sobre a condição daqueles que rejeitam a mensagem. Agora o discurso se move para o efeito da rejeição e hostilidade contra os mensageiros. Rejeição da mensagem irá implicar em hostilidade e perseguição direta contra aqueles que a proclamam. Os discípulos são enviados “como ovelhas no meio de lobos” (v 16). O conselho é dado aqui para aqueles que se encontram em circunstâncias adversas. Este aspecto mais sombrio da instrução para os apóstolos (e para a Igreja), continua até quase o final do discurso (por exemplo, até o v39).
B. Os sinóticos paralelos a esta pericope são principalmente a partir do discurso escatológico, em Marcos (13.9-13) e Lucas (21.12). O material tem um anel escatológico, uma vez que este se refere ao período de grande tribulação. Ao lado de Mateus, apenas Lucas (12.11-12) usa algum deste material fora do discurso escatológico em conexão com o tema de aceitação e rejeição do evangelho, ou mais exatamente a confissão ou negação de Jesus (compare Mateus 10.32-33). Mateus tem aparentemente tomado o material original a partir do discurso escatológico – material que refere ao (distante) futuro – e incluiu este em um discurso missionário para os doze. Assim, Mateus aplica o presente discurso muito mais como para a igreja de seus dias (e avante), como também para o atual envio dos doze. O versículo 18, no entanto, pode referir-se ao testemunho para os gentios, alguma coisa proibida para os doze no início do discurso (v 5).
Separado do v 16ª, o qual é extraído de Q (compare Lucas 10.3; mas ἄρνας, “cordeiros”, para πρόβατα, “ovelhas”), Mateus segue Marcos, porém não muito exatamente no atual texto. Em Mateus προσέχετε δὲ ἀπὸ τῶν ἀνθρώπων, “E acautelai-vos dos homens” (v 17), e o equivalente de Marcos 13.9, βλέπετε δὲ ὑμεῖς ἑαυτούς, “Estai vós de sobreaviso”. Posteriormente Mateus concorda com Marcos exceto pelos pequenos detalhes: em exemplo a adição de αὐτῶν, “vos”, depois συναγωγαῖς, “sinagogas” (v 17; compare Marcos 13.9); o verbo μαστιγώσουσιν, “açoitarão” (um termo mais técnico para a punição infligida pela sinagoga), para δαρήσεσθε de Marcos, “sereis açoitados” (v 17; compare. Marcos 13.9); o verbo ἀχθήσεσθε, “sereis levados”, para σταθήσεσθε de Marcos, “vos farão comparecer” (v 18; Marcos 13.9). Mateus omite Marcos 13.10 (isto é incluído no discurso escatológico de Mateus, 24.14). O V 19 segue Marcos 13.11a intimamente (a única significante diferença é a inserção de Mateus πῶς, “como”, com referência ao dizer). O V 20 é também muito similar a Marcos 13.11b, exceto pela alteração de Mateus de τὸ πνεῦμα τὸ ἅγιον, “o Espírito Santo”, para τὸ πνεῦμα τοῦ πατρός, “o Espírito do Pai”. V 21 é a repetição literal de Marcos 13.12. Mateus concluindo os versos (22-23), por outro lado, não procura paralelos sinóticos, provavelmente sendo tomada de uma tradição oral disponível para Mateus (Schürmann, por outro lado, lembra Q como a fonte, localizando v 23 no final de Lucas 10.1–12). V 22 é literalmente paralelo parcialmente em 24.9 e 13. V 23b com a sua preocupação com a missão de Israel pode ter sido originalmente um dito independente ligado por Mateus aos versos que a precedem imediatamente com a ampla finalidade dela.
C. Como é comum nos discursos, a forma do material em seus menores componentes demonstra uma refinada estrutura que faz muito uso de paralelismo. Por outro lado, a estrutura como um todo revela uma arbitrária justaposição do material relacionado decorrente de contextos diferentes, mas postos juntos aqui por causa do tema comum. A perícope é composta pelos seguintes elementos: (1) o anúncio do perigo dos discípulos e um provérbio adequado com paralelismo (V 16); (2) uma advertência geral, seguida pelos três itens específicos, indicados pelos verbos παραδώσουσιν, “eles vos entregarão”, μαστιγώσουσιν, “eles vos açoitarão” – essas duas cláusulas sendo paralelas em estrutura – e ἀχθήσεσθε, “sereis levados” (vv 17–18; compare os pares paralelos, “sanhedrins” e “sinagogas” [v 17], e “governadores e reis” [v 18]; no uso desses verbos ambos judaicos e gentios [v 18] estão em vista); (3) o incentivo para não se preocupar com uma defesa porque o Espírito vai falar através de uma, novamente com muito paralelismo (vv 19-20); (4) traição, ódio e morte por causa de Cristo (vv 21-22a), ambos com paralelismo e quiasmo (pai-criança, criança-progenitores); (5) um encorajamento a resistir (v 22b); (6) o mandamento para fugir das angústias e perseguições por causa de uma séria limitação de tempo (v. 23). Em adição ao tema comum de perseguição e problema, um significante elemento unificador é escatológico. Não só o pastor segue as ovelhas (v 16) e o Filho do Homem aparece no final, mas as frases ἕνεκεν ἐμοῦ, “por minha causa” (v 18), e διὰ τὸ ὄνομά μου, “por causa do meu nome” (v 22), aponta para a centralidade de Jesus ao evangelho (compare 5.10-11).
D. O dizer proverbial de v 16b é citado em Ign. Pol. 2.2 e também é encontrado em o Gos. Thom. 39 e em POxy 655.
Comentário
16 ἰδοὺ ἐγὼ ἀποστέλλω ὑμᾶς ὡς πρόβατα ἐν μέσῳ λύκων• γίνεσθε οὖν φρόνιμοι ὡς οἱ ὄφεις καὶ ἀκέραιοι ὡς αἱ περιστεραί.
ἰδοὺ, “eis”, é uma palavra familiar do uso de Mateus, faz parte do estilo dele. Esta palavra chama atenção para a notável afirmação que segue. Jesus enviou os doze (Mateus 10.1) dentro de um hostil e perigoso mundo (compare 23.34). Onde eles estarão vulneráveis como πρόβατα, “ovelhas”, no meio de λύκων, “lobos”. Dificilmente a imagem de perigo poderia ser mais nítida. Enquanto ovelhas em Mateus normalmente refere-se àqueles que estão perdidos (exemplos: 9.36; 10.6; 15.24; 18.12) em 26.31 isto refere-se aos discípulos (compare 25.32-33). Em ambos os lugares, mas especialmente aqui, a palavra é usada para se referir ao perigo que ameaça os discípulos (cordeiros em Lucas 10.3 faz o mesmo ponto). A natureza deste perigo será explicada no decorrer do discurso. Compare a mesma analogia, mas com um quadro de referencias diferente em 7.15 (compare com atos 20.29 e João 10.12). Em face do perigo que os discípulos se encontram, eles são instruídos a serem como φρόνιμοι ὡς οἱ ὄφεις, “astutos como serpentes”, e ἀκέραιοι ὡς αἱ περιστεραί, “símplices como pombas”. Isto pode refletir um provérbio popular. A idéia de sabedoria ou astúcia da serpente remonta à gênesis 3.1 onde a mesma palavra φρόνιμος, é usada (compare 2 Coríntios 11.3). A pomba, acreditada pelos antigos não possuir biles, prontamente simbolizava uma variedade de virtudes. (BAGD, 651–52). Ambas as instruções são práticas (compare o mandamento para fugir das perseguições, v 23) e de acordo com o tom da ética dos ensinamentos de Jesus (para ἀκέραιοι, “inocentes”, compare Filipenses 2.15; e para o provérbio inteiro, Romanos 16.19, “sábios para o bem e símplices para o mal”). Assim, quando em perigo e perseguição, os discípulos precisam de discernimento prático e ao mesmo tempo de ingenuidade que é caracterizada por Jesus.
17-18 προσέχετε δὲ ἀπὸ τῶν ἀνθρώπων• παραδώσουσιν γὰρ ὑμᾶς εἰς συνέδρια καὶ ἐν ταῖς συναγωγαῖς αὐτῶν μαστιγώσουσιν ὑμᾶς• καὶ ἐπὶ ἡγεμόνας δὲ καὶ βασιλεῖς ἀχθήσεσθε ἕνεκεν ἐμοῦ εἰς μαρτύριον αὐτοῖς καὶ τοῖς ἔθνεσιν.
Em suas missões os discípulos devem ser astutos por outros motivos (compare a necessidade de “sabedoria” nos versos precedentes), para evitar cair nas mãos daqueles que gostariam de lhes fazer mal. Aqueles são os quais entregam a eles para os εἰς συνέδρια, para os “para sanhedrins” , traduzido aqui como “tribunais” (compare Atos 5.27; 6.12), e aqueles que irão açoitá-los ἐν ταῖς συναγωγαῖς αὐτῶν, “em suas sinagogas” (compare Atos 22.19; 2 Co 11.23-25). Mateus, em adição de “suas”, aponta para um sério rompimento entre as sinagogas e a comunidade judaico-cristã de Mateus. Os “sanhedrins”, refere-se ao corpo judicial local dentro do judaísmo, não para o sanhedrin em Jerusalém especificamente (porém claro que o sanhedrin não está excluído). Para “açoitarão em suas sinagogas”, veja o íntimo paralelo em 23.34. No versículo 18 a atenção muda de repente e surpreendentemente de um estrito contexto judaico, assim rapidamente (compare v 5-6) para a menção de ἡγεμόνας, “governadores” (provavelmente governadores romanos provinciais), e βασιλεῖς, reis (compare Atos 22.23, aqui como um rei judaico; 27.24), e a específica referência para testemunho a αὐτοῖς,“eles” (por exemplo, príncipes e reis), e τοῖς ἔθνεσιν, aos gentios (para linguagem similar veja 24.14). Isto ampliou os horizontes para apontar a combinação de materiais dispares por Mateus e para a intenção de que o discurso é destinação não somente às missões dos doze, mas também à igreja posterior. ἕνεκεν ἐμοῦ, “por minha causa”, é uma declaração importante, porém indiretamente escatológica (compare 5.11; 10.39; 16.25; 19.20).
19-20 ὅταν δὲ παραδῶσιν ὑμᾶς μὴ μεριμνήσητε πῶς ἢ τί λαλήσητε• δοθήσεται γὰρ ὑμῖν ἐν ἐκείνῃ τῇ ὥρᾳ τί λαλήσητε• οὐ γὰρ ὑμεῖς ἐστε οἱ λαλοῦντες ἀλλὰ τὸ πνεῦμα τοῦ πατρὸς ὑμῶν τὸ λαλοῦν ἐν ὑμῖν.
Quando os discípulos encontram a si mesmos nas mãos (παραδῶσιν, o mesmo verbo como no v 17 e v 18) das autoridades, antes deles fazerem suas defesas, são instruídos a não serem ansiosos (μὴ μεριμνήσητε; compare o mandamento de 6.25, 31, 34) sobre o que dizer. δοθήσεται, “vos será concedido”, é um passivo divino onde Deus é entendido como o sujeito que age. Isto é, como Mateus continua a dizer, τὸ πνεῦμα τοῦ πατρὸς ὑμῶν, “o Espírito do vosso Pai”, quem irá falar através dos discípulos (para este conceito no AT, veja Êxodo 4.12). Esta expressão incomum (substituída pela de Marcos 13.11 τὸ πνεῦμα τὸ ἅγιον, o “Espírito Santo”) é única no NT e reflete a preferência de Mateus pelo título mais íntimo “Pai” (vinte vezes em Mateus, uma em Marcos, e três vezes em Lucas). Esta intimidade é fortalecida pela adição do pronome pessoal “vosso” (5.16, 45, 48, etc...). A noção de enunciação inspirada pelo Espírito Santo não é rara no NT (compare Atos 4.8).
21 παραδώσει δὲ ἀδελφὸς ἀδελφὸν εἰς θάνατον καὶ πατὴρ τέκνον καὶ ἐπαναστήσονται τέκνα ἐπὶ γονεῖς καὶ θανατώσουσιν αὐτούς.
Agora a imagem da perseguição se torna mais sinistra: membros da família serão pegos por outros e postos à morte. Esta divisão entre os membros da família emerge novamente nos v 34-36 onde Miquéias 7.6 é citado fazendo o mesmo ponto. O tema escatológico deste material é óbvio (compare sua localização no discurso escatológico de Marcos e Lucas) e aponta para a época das catástrofes messiânicas. A entrega para ser morto sugere um tempo de grande perseguição e a hostilidade dos poderes do mal, pouco antes do fim dos tempos (compare v 22b). Este versículo está aqui como parte da coleção de Mateus dos ditos de Jesus referentes à perseguição. “Irmão contra irmão” é encontrado em Mateus somente aqui, para crianças contra progenitores (mas não o contrário), veja o v 35.
22 καὶ ἔσεσθε μισούμενοι ὑπὸ πάντων διὰ τὸ ὄνομά μου• ὁ δὲ ὑπομείνας εἰς τέλος οὗτος σωθήσεται.
A declaração hiperbólica (ὑπὸ πάντων, “por todos”), aponta novamente para as angústias do tempo escatológico. Haverá ódio generalizado contra aqueles que seguem Jesus e pregam sua mensagem. διὰ τὸ ὄνομά μου, “por causa do meu nome”, é novamente um elemento fortemente cristológico neste material (compare v 18; compare João 15.21). As palavras καὶ ἔσεσθε μισούμενοι ὑπὸ πάντων διὰ τὸ ὄνομά μου, “Sereis odiados de todos por causa do meu nome”, são encontradas literalmente em 24.9, exceto que o último tem τῶν ἐθνῶν, “os gentios” (ou todas as nações na ARA), depois de πάντων, “todos”. A situação vislumbrada aqui também é antecipada em 5.11 (compare ἕνεκεν ἐμοῦ,“por minha causa”), onde a perseguição é vista paradoxalmente sendo uma marca de bem-aventurança dos discípulos de Jesus (compare também o paralelo de Lucas 6.22, onde o verbo μισεῖν, “odiar” também é usado [compare também Lucas 6.22 ἕνεκα τοῦ υἱοῦ τοῦ ἀνθρώπου, “por causa do filho do Homem”]; compare João 15.18; 1 João 3.13). Que a perseguição e o ódio contra os doze e os presentes versos são uma parte do problema escatológico é indicado pelas palavras ὁ δὲ ὑπομείνας εἰς τέλος οὗτος σωθήσεται, “aquele que perseverar até o fim será salvo”, palavras que aparecem novamente literalmente no 24.13. O ponto da declaração é claro: aquele que resiste fielmente a essa perseguição εἰς τέλος, “no final” (por exemplo, o fim da vida da pessoa ou o fim da perseguição e saraiva e o fim dos tempos), será salvo (veja 4 Esdras 6.25; 9.7-8; 2 Timóteo 2.12) e entrará finalmente dentro da prometida paz para a participação no Reino.
23 ὅταν δὲ διώκωσιν ὑμᾶς ἐν τῇ πόλει ταύτῃ φεύγετε εἰς τὴν ἑτέραν• ἀμὴν γὰρ λέγω ὑμῖν, οὐ μὴ τελέσητε τὰς πόλεις τοῦ Ἰσραὴλ ἕως [ἂν] ἔλθῃ ὁ υἱὸς τοῦ ἀνθρώπου.
Os discípulos são aconselhados a fugirem da perseguição de uma cidade para outra (compare ἀπὸ πόλεως εἰς πόλιν, “de cidade para cidade,” 23.34; compare 24.16; Atos 8.1; 14.6). As seguintes declarações constituem um dos mais difíceis desafios para os intérpretes de Mateus. Um problema similar emerge em 16.28 e 24.32, os quais eventualmente podem lançar luz sobre a passagem em apreço, embora cada passagem deva ser manuseada por si própria dentro de seu contexto. É preferível uma explicação que faça coerente todas as três passagens. O presente versículo teve mais aparentemente um dito original separado (então correto Kümmel), e foi colocado aqui pelo evangelista porque este era apropriado. Faz pouca diferença se οὐ μὴ τελέσητε τὰς πόλεις τοῦ Ἰσραήλ, “vocês não completarão em todas as cidades de Israel” (isto pode duramente significar evangelismo para os judeus através de todos os tempos, tornando assim o ponto irrelevante para aqueles que primeiro ouviram estas palavras), ou “vocês não utilizarão todas as cidades disponíveis para fugir (da perseguição)”. Outro caso também envolve uma limitação de tempo, por exemplo, o Filho do Homem virá e trará aquela situação para o fim, assim trazendo conforto e esperança para aqueles que estão sendo perseguidos. O ponto crucial é referido pelas palavras ἕως ἂν ἔλθῃ ὁ υἱὸς τοῦ ἀνθρώπου, “até que o Filho do Homem venha”.
Pelo menos três possibilidades podem ser mencionadas: (1) a parousia ou vinda do Filho do Homem, por exemplo, o início da eschaton; (2) a destruição de Jerusalém, por exemplo, o julgamento do Filho do Homem sobre Israel; ou (3) alguma marcante experiência do poder do novo tempo, tal como a morte ou a ressurreição de Jesus, o derramamento do Espírito Santo em Pentecostes, ou mesmo o sucesso das missões aos gentios, ou a combinação desses. A primeira possibilidade, a qual tem mais vantagem de ser o entendimento mais natural da cláusula (compare 24.30, citando Daniel 7.13-14), normalmente deve ser preferida. Neste caso Jesus assume que a parousia irá ocorrer não no tão distante futuro, uma visão que é teologicamente justificável (por exemplo, o advento do reino implica a proximidade das novas do própria escathon), mas como nós sabemos (e talvez os leitores de Mateus também soubessem) tem provado ser historicamente errada. No entanto, se a visão alternativa que está sendo mencionada, deve finalmente ser observada como insatisfatória, a primeira possibilidade pode continuar a ser mais atraente, tomando em conta a total humanidade de Jesus e sua própria confissão sobre desconhecer o tempo de sua parousia (24.36). Por outro lado, as outras possibilidades não devem ser descartadas tão rapidamente. Künzi, quem optou pela visão escatológica, ainda encontra valor nas interpretações não escatológicas da frase. A destruição de Jerusalém (70 A.D.) pode possivelmente já ter ocorrido quando o evangelho foi escrito e pode ter sido entendida como um julgamento trazido pelo Filho do Homem. Esta interpretação tem a vantagem de ligar a declaração do versículo 23b intimamente com o mandamento do versículo 23a: quando os discípulos encontraram hostilidade e rejeição do evangelho, eles não se moveram sobre a próxima cidade para completar a missão à Israel antes de muito tarde (compare 7.6). No entanto, o que está em vista é o quadro de tempo já encontrado em 10.5–6; isto é, durante o tempo de Jesus o foco da missão é sobre os judeus, mas depois da ressurreição de Jesus e a experiência do Espírito em pentecostes, o foco da missão irá rapidamente se mover para os gentios. A igreja de Mateus conhece que isto existe no tempo predito por Jesus, quando os gentios devem ter ouvido e respondido à mensagem do evangelho; provavelmente não tiveram, no entanto, continuado a evangelizar os judeus (veja em 28.19). Se Jesus realmente contemplou um tempo para vir quando o evangelho deve ter ido ser pregado aos gentios, é improvável que sua referência à vinda do Filho do Homem signifique a parousia, desde que este evento ocorre antes do fim da missão para os judeus (McNeile observa isto como “impossível”). Carson corretamente observa que “na vinda do Filho do Homem em Mateus, existe o mesmo rico campo semântico que ‘a vinda do Reino”’.
Neste contexto, a mais natural interpretação do 23b é a seguinte. O γάρ, “pois”, liga as sentenças intimamente com a sentença precedente, oferecendo o fundamento ou a razão para fugir, e assim as duas sentenças devem ser entendidas juntas. οὐ μὴ τελέσητε τὰς πόλεις τοῦ Ἰσραήλ, “vocês não irão completar em todas as cidades de Israel”, refere-se também à esgotar as cidades que podem ser usadas para refúgio da perseguição ou para completar a tarefa de evangelização, ou ambas (uma vez que a primeira implica a última). Em suma, a missão para Israel – a específica missão referida no versículo 6 e não uma aberta missão para os judeus em um futuro indeterminado – não será concluída antes que ἔλθῃ ὁ υἱὸς τοῦ ἀνθρώπου, “venha o Filho do Homem”. O significado clássico da vinda do Filho do Homem, como, por exemplo, encontrado em 17.27-28 e 24.30, invoca Daniel 7.13-14 e refere ao final do presente tempo e a parousia, ou segunda vinda de Jesus. Mas nós podemos dificilmente aceitar que o significado aqui, uma vez que Mateus nos diz em muitos outros lugares sobre uma missão aos gentios, que deve tomar lugar antes do fim dos tempos (compare 21.43; 24.14). Isto é, a missão para Israel não pode ser interrompida pela parousia antes da conclusão sem uma necessária negação de um importante fio de material inequívoco no evangelho (veja também especialmente 28.19). Assim a vinda do Filho do Homem aqui deve se referir à alguma coisa mais. Provavelmente nós devemos descartar a interpretação da frase como significando “até eu [por exemplo, ‘o Filho do homem em um não titular sentido como simplesmente um circunlóquio para ‘eu’] junto você” nomeadamente, umas poucas semanas ou meses depois (a menos que tal declaração inócua fosse algo incompreendido pela igreja). Isto é, além disso, não há nenhuma evidência de perseguição do grau referido no 23a nesse cedo momento. Isto deixa a possibilidade de uma mais dramática “vinda do Filho do Homem” e na ressurreição de Jesus, na vinda do Espírito em Pentecostes, ou no poder e sucesso da missão para os gentios. As duas primeiras possibilidades novamente parecem demasiado cedo para a experiência da perseguição, e a última seja talvez demasiado nebulosa. A possibilidade final, e a melhor de todas, é que a frase se refira à vinda do Filho do Homem no julgamento da destruição de Jerusalém em 70 A.D. Três pontos importantes argumentam a favor desta conclusão: (1) a destruição de Jerusalém pré-figura e é tipológicamente relacionada ao julgamento final (veja o capítulo 24) e, por tanto, também pode ser vista como a obra do Filho do Homem (compare 24.27-31); (2) a destruição de Jerusalém simboliza a rejeição do evangelho pelos judeus e assim a mudança da história da salvação, a partir dos judeus para os gentios, o antigo perde a sua prioridade; e (3) a abundante evidência da perseguição judaica aos cristãos antes de (bem como depois) A.D. 70. De acordo com esta interpretação, o significado do verso 23b vem a ser o seguinte: Esta missão exclusiva dos doze à Israel, a qual reflete em sua história da salvação, prioridade sobre os gentios, não vai chegar à sua conclusão antes de ser interrompida pela vinda do Filho do Homem em julgamento sobre Jerusalém, simbolizando assim o quadro de tempo em que os gentios, ao invés dos judeus, assumem a prioridade no propósito de Deus. A missão para os judeus, refletindo seu lugar na história da salvação, assim, tem um tempo limitado, o fim do qual (mas não fim do evangelismo dos judeus) será acentuado pela vinda do Filho do Homem em julgamento sobre israel.
Explanação
A estranheza desta nova ênfase sobre a perseguição, sofrimento, e até a morte de muitos que proclamam o cumprimento da promessa, as boas novas do reino, é notável. Há uma incongruência acentuada, o que sem dúvida pressionou-se sobre os discípulos. Como poderia uma mensagem de alegria e poder, se fosse verdade, ser compatível com as coisas que os discípulos eram orientados a esperar? Os discípulos, como as igrejas de todos os tempos, tinham aprendido sobre o presente como um tipo de período de transição, uma realização, ainda de curta consumação, em que o sofrimento estava sendo conquistado, mas ainda claramente experimentado. No entanto, eles são enviados por Jesus, e o Espírito de seu Pai irá fornecer qualquer defesa que possam necessitar. Isto é, por um lado, nenhum heroísmo carnal aqui, sem complexos de martírio – eles estão sendo astutos e fugindo. Sim, por outro lado, há um chamado à resistência. Estes que resistem irão finalmente receber a completa e perfeita benção que é escatológicamente chamada salvação, a perfeita e última shalom (bem-estar definitivo). A benção a qual os discípulos experimentam em suas missões será experimentada por todos os mensageiros do evangelho no final dos tempos (compare capítulo 24).
Tradução
16Eis, eu estou enviando vocês como ovelhas no meio de lobos. Sede astutos como serpentes, porém, como pombas inocentes.
17Sejais cautelosos das pessoas. Pois alguns vos entregarão aos sanhedrins, e eles irão açoitar vocês em suas sinagogas. 18E por minha causa vocês serão levados à presença de governadores e reis para testemunho a eles e aos gentios. 19Mas quando eles entregarem vocês, não se preocupem sobre como ou mesmo o que vocês deverão dizer. Pois o que vocês deverão dizer será dado a vocês naquela hora. 20Pois não serão vocês quem estarão falando, mas será o Espírito do Pai de vocês quem falará através de vocês.
21Mas irmão irá entregar irmão à morte, e um pai a seu filho, e filhos haverão que se levantarão contra seus progenitores e colocarão eles à morte. 22 E vocês serão odiados por todos por causa do meu nome. Mas aquele quem resistir até o fim é que será salvo.
23 Mas quando eles perseguirem vocês nesta cidade, fujam para uma outra. Pois verdade eu digo a vocês, vocês não terão completado todas suas missões nas cidades de Israel antes que venha o Filho do Homem.
Forma/Estrutura/Definição
A. O final da passagem anterior deixa claro que alguns rejeitarão a mensagem do reino. Aquela era sobre a condição daqueles que rejeitam a mensagem. Agora o discurso se move para o efeito da rejeição e hostilidade contra os mensageiros. Rejeição da mensagem irá implicar em hostilidade e perseguição direta contra aqueles que a proclamam. Os discípulos são enviados “como ovelhas no meio de lobos” (v 16). O conselho é dado aqui para aqueles que se encontram em circunstâncias adversas. Este aspecto mais sombrio da instrução para os apóstolos (e para a Igreja), continua até quase o final do discurso (por exemplo, até o v39).
B. Os sinóticos paralelos a esta pericope são principalmente a partir do discurso escatológico, em Marcos (13.9-13) e Lucas (21.12). O material tem um anel escatológico, uma vez que este se refere ao período de grande tribulação. Ao lado de Mateus, apenas Lucas (12.11-12) usa algum deste material fora do discurso escatológico em conexão com o tema de aceitação e rejeição do evangelho, ou mais exatamente a confissão ou negação de Jesus (compare Mateus 10.32-33). Mateus tem aparentemente tomado o material original a partir do discurso escatológico – material que refere ao (distante) futuro – e incluiu este em um discurso missionário para os doze. Assim, Mateus aplica o presente discurso muito mais como para a igreja de seus dias (e avante), como também para o atual envio dos doze. O versículo 18, no entanto, pode referir-se ao testemunho para os gentios, alguma coisa proibida para os doze no início do discurso (v 5).
Separado do v 16ª, o qual é extraído de Q (compare Lucas 10.3; mas ἄρνας, “cordeiros”, para πρόβατα, “ovelhas”), Mateus segue Marcos, porém não muito exatamente no atual texto. Em Mateus προσέχετε δὲ ἀπὸ τῶν ἀνθρώπων, “E acautelai-vos dos homens” (v 17), e o equivalente de Marcos 13.9, βλέπετε δὲ ὑμεῖς ἑαυτούς, “Estai vós de sobreaviso”. Posteriormente Mateus concorda com Marcos exceto pelos pequenos detalhes: em exemplo a adição de αὐτῶν, “vos”, depois συναγωγαῖς, “sinagogas” (v 17; compare Marcos 13.9); o verbo μαστιγώσουσιν, “açoitarão” (um termo mais técnico para a punição infligida pela sinagoga), para δαρήσεσθε de Marcos, “sereis açoitados” (v 17; compare. Marcos 13.9); o verbo ἀχθήσεσθε, “sereis levados”, para σταθήσεσθε de Marcos, “vos farão comparecer” (v 18; Marcos 13.9). Mateus omite Marcos 13.10 (isto é incluído no discurso escatológico de Mateus, 24.14). O V 19 segue Marcos 13.11a intimamente (a única significante diferença é a inserção de Mateus πῶς, “como”, com referência ao dizer). O V 20 é também muito similar a Marcos 13.11b, exceto pela alteração de Mateus de τὸ πνεῦμα τὸ ἅγιον, “o Espírito Santo”, para τὸ πνεῦμα τοῦ πατρός, “o Espírito do Pai”. V 21 é a repetição literal de Marcos 13.12. Mateus concluindo os versos (22-23), por outro lado, não procura paralelos sinóticos, provavelmente sendo tomada de uma tradição oral disponível para Mateus (Schürmann, por outro lado, lembra Q como a fonte, localizando v 23 no final de Lucas 10.1–12). V 22 é literalmente paralelo parcialmente em 24.9 e 13. V 23b com a sua preocupação com a missão de Israel pode ter sido originalmente um dito independente ligado por Mateus aos versos que a precedem imediatamente com a ampla finalidade dela.
C. Como é comum nos discursos, a forma do material em seus menores componentes demonstra uma refinada estrutura que faz muito uso de paralelismo. Por outro lado, a estrutura como um todo revela uma arbitrária justaposição do material relacionado decorrente de contextos diferentes, mas postos juntos aqui por causa do tema comum. A perícope é composta pelos seguintes elementos: (1) o anúncio do perigo dos discípulos e um provérbio adequado com paralelismo (V 16); (2) uma advertência geral, seguida pelos três itens específicos, indicados pelos verbos παραδώσουσιν, “eles vos entregarão”, μαστιγώσουσιν, “eles vos açoitarão” – essas duas cláusulas sendo paralelas em estrutura – e ἀχθήσεσθε, “sereis levados” (vv 17–18; compare os pares paralelos, “sanhedrins” e “sinagogas” [v 17], e “governadores e reis” [v 18]; no uso desses verbos ambos judaicos e gentios [v 18] estão em vista); (3) o incentivo para não se preocupar com uma defesa porque o Espírito vai falar através de uma, novamente com muito paralelismo (vv 19-20); (4) traição, ódio e morte por causa de Cristo (vv 21-22a), ambos com paralelismo e quiasmo (pai-criança, criança-progenitores); (5) um encorajamento a resistir (v 22b); (6) o mandamento para fugir das angústias e perseguições por causa de uma séria limitação de tempo (v. 23). Em adição ao tema comum de perseguição e problema, um significante elemento unificador é escatológico. Não só o pastor segue as ovelhas (v 16) e o Filho do Homem aparece no final, mas as frases ἕνεκεν ἐμοῦ, “por minha causa” (v 18), e διὰ τὸ ὄνομά μου, “por causa do meu nome” (v 22), aponta para a centralidade de Jesus ao evangelho (compare 5.10-11).
D. O dizer proverbial de v 16b é citado em Ign. Pol. 2.2 e também é encontrado em o Gos. Thom. 39 e em POxy 655.
Comentário
16 ἰδοὺ ἐγὼ ἀποστέλλω ὑμᾶς ὡς πρόβατα ἐν μέσῳ λύκων• γίνεσθε οὖν φρόνιμοι ὡς οἱ ὄφεις καὶ ἀκέραιοι ὡς αἱ περιστεραί.
ἰδοὺ, “eis”, é uma palavra familiar do uso de Mateus, faz parte do estilo dele. Esta palavra chama atenção para a notável afirmação que segue. Jesus enviou os doze (Mateus 10.1) dentro de um hostil e perigoso mundo (compare 23.34). Onde eles estarão vulneráveis como πρόβατα, “ovelhas”, no meio de λύκων, “lobos”. Dificilmente a imagem de perigo poderia ser mais nítida. Enquanto ovelhas em Mateus normalmente refere-se àqueles que estão perdidos (exemplos: 9.36; 10.6; 15.24; 18.12) em 26.31 isto refere-se aos discípulos (compare 25.32-33). Em ambos os lugares, mas especialmente aqui, a palavra é usada para se referir ao perigo que ameaça os discípulos (cordeiros em Lucas 10.3 faz o mesmo ponto). A natureza deste perigo será explicada no decorrer do discurso. Compare a mesma analogia, mas com um quadro de referencias diferente em 7.15 (compare com atos 20.29 e João 10.12). Em face do perigo que os discípulos se encontram, eles são instruídos a serem como φρόνιμοι ὡς οἱ ὄφεις, “astutos como serpentes”, e ἀκέραιοι ὡς αἱ περιστεραί, “símplices como pombas”. Isto pode refletir um provérbio popular. A idéia de sabedoria ou astúcia da serpente remonta à gênesis 3.1 onde a mesma palavra φρόνιμος, é usada (compare 2 Coríntios 11.3). A pomba, acreditada pelos antigos não possuir biles, prontamente simbolizava uma variedade de virtudes. (BAGD, 651–52). Ambas as instruções são práticas (compare o mandamento para fugir das perseguições, v 23) e de acordo com o tom da ética dos ensinamentos de Jesus (para ἀκέραιοι, “inocentes”, compare Filipenses 2.15; e para o provérbio inteiro, Romanos 16.19, “sábios para o bem e símplices para o mal”). Assim, quando em perigo e perseguição, os discípulos precisam de discernimento prático e ao mesmo tempo de ingenuidade que é caracterizada por Jesus.
17-18 προσέχετε δὲ ἀπὸ τῶν ἀνθρώπων• παραδώσουσιν γὰρ ὑμᾶς εἰς συνέδρια καὶ ἐν ταῖς συναγωγαῖς αὐτῶν μαστιγώσουσιν ὑμᾶς• καὶ ἐπὶ ἡγεμόνας δὲ καὶ βασιλεῖς ἀχθήσεσθε ἕνεκεν ἐμοῦ εἰς μαρτύριον αὐτοῖς καὶ τοῖς ἔθνεσιν.
Em suas missões os discípulos devem ser astutos por outros motivos (compare a necessidade de “sabedoria” nos versos precedentes), para evitar cair nas mãos daqueles que gostariam de lhes fazer mal. Aqueles são os quais entregam a eles para os εἰς συνέδρια, para os “para sanhedrins” , traduzido aqui como “tribunais” (compare Atos 5.27; 6.12), e aqueles que irão açoitá-los ἐν ταῖς συναγωγαῖς αὐτῶν, “em suas sinagogas” (compare Atos 22.19; 2 Co 11.23-25). Mateus, em adição de “suas”, aponta para um sério rompimento entre as sinagogas e a comunidade judaico-cristã de Mateus. Os “sanhedrins”, refere-se ao corpo judicial local dentro do judaísmo, não para o sanhedrin em Jerusalém especificamente (porém claro que o sanhedrin não está excluído). Para “açoitarão em suas sinagogas”, veja o íntimo paralelo em 23.34. No versículo 18 a atenção muda de repente e surpreendentemente de um estrito contexto judaico, assim rapidamente (compare v 5-6) para a menção de ἡγεμόνας, “governadores” (provavelmente governadores romanos provinciais), e βασιλεῖς, reis (compare Atos 22.23, aqui como um rei judaico; 27.24), e a específica referência para testemunho a αὐτοῖς,“eles” (por exemplo, príncipes e reis), e τοῖς ἔθνεσιν, aos gentios (para linguagem similar veja 24.14). Isto ampliou os horizontes para apontar a combinação de materiais dispares por Mateus e para a intenção de que o discurso é destinação não somente às missões dos doze, mas também à igreja posterior. ἕνεκεν ἐμοῦ, “por minha causa”, é uma declaração importante, porém indiretamente escatológica (compare 5.11; 10.39; 16.25; 19.20).
19-20 ὅταν δὲ παραδῶσιν ὑμᾶς μὴ μεριμνήσητε πῶς ἢ τί λαλήσητε• δοθήσεται γὰρ ὑμῖν ἐν ἐκείνῃ τῇ ὥρᾳ τί λαλήσητε• οὐ γὰρ ὑμεῖς ἐστε οἱ λαλοῦντες ἀλλὰ τὸ πνεῦμα τοῦ πατρὸς ὑμῶν τὸ λαλοῦν ἐν ὑμῖν.
Quando os discípulos encontram a si mesmos nas mãos (παραδῶσιν, o mesmo verbo como no v 17 e v 18) das autoridades, antes deles fazerem suas defesas, são instruídos a não serem ansiosos (μὴ μεριμνήσητε; compare o mandamento de 6.25, 31, 34) sobre o que dizer. δοθήσεται, “vos será concedido”, é um passivo divino onde Deus é entendido como o sujeito que age. Isto é, como Mateus continua a dizer, τὸ πνεῦμα τοῦ πατρὸς ὑμῶν, “o Espírito do vosso Pai”, quem irá falar através dos discípulos (para este conceito no AT, veja Êxodo 4.12). Esta expressão incomum (substituída pela de Marcos 13.11 τὸ πνεῦμα τὸ ἅγιον, o “Espírito Santo”) é única no NT e reflete a preferência de Mateus pelo título mais íntimo “Pai” (vinte vezes em Mateus, uma em Marcos, e três vezes em Lucas). Esta intimidade é fortalecida pela adição do pronome pessoal “vosso” (5.16, 45, 48, etc...). A noção de enunciação inspirada pelo Espírito Santo não é rara no NT (compare Atos 4.8).
21 παραδώσει δὲ ἀδελφὸς ἀδελφὸν εἰς θάνατον καὶ πατὴρ τέκνον καὶ ἐπαναστήσονται τέκνα ἐπὶ γονεῖς καὶ θανατώσουσιν αὐτούς.
Agora a imagem da perseguição se torna mais sinistra: membros da família serão pegos por outros e postos à morte. Esta divisão entre os membros da família emerge novamente nos v 34-36 onde Miquéias 7.6 é citado fazendo o mesmo ponto. O tema escatológico deste material é óbvio (compare sua localização no discurso escatológico de Marcos e Lucas) e aponta para a época das catástrofes messiânicas. A entrega para ser morto sugere um tempo de grande perseguição e a hostilidade dos poderes do mal, pouco antes do fim dos tempos (compare v 22b). Este versículo está aqui como parte da coleção de Mateus dos ditos de Jesus referentes à perseguição. “Irmão contra irmão” é encontrado em Mateus somente aqui, para crianças contra progenitores (mas não o contrário), veja o v 35.
22 καὶ ἔσεσθε μισούμενοι ὑπὸ πάντων διὰ τὸ ὄνομά μου• ὁ δὲ ὑπομείνας εἰς τέλος οὗτος σωθήσεται.
A declaração hiperbólica (ὑπὸ πάντων, “por todos”), aponta novamente para as angústias do tempo escatológico. Haverá ódio generalizado contra aqueles que seguem Jesus e pregam sua mensagem. διὰ τὸ ὄνομά μου, “por causa do meu nome”, é novamente um elemento fortemente cristológico neste material (compare v 18; compare João 15.21). As palavras καὶ ἔσεσθε μισούμενοι ὑπὸ πάντων διὰ τὸ ὄνομά μου, “Sereis odiados de todos por causa do meu nome”, são encontradas literalmente em 24.9, exceto que o último tem τῶν ἐθνῶν, “os gentios” (ou todas as nações na ARA), depois de πάντων, “todos”. A situação vislumbrada aqui também é antecipada em 5.11 (compare ἕνεκεν ἐμοῦ,“por minha causa”), onde a perseguição é vista paradoxalmente sendo uma marca de bem-aventurança dos discípulos de Jesus (compare também o paralelo de Lucas 6.22, onde o verbo μισεῖν, “odiar” também é usado [compare também Lucas 6.22 ἕνεκα τοῦ υἱοῦ τοῦ ἀνθρώπου, “por causa do filho do Homem”]; compare João 15.18; 1 João 3.13). Que a perseguição e o ódio contra os doze e os presentes versos são uma parte do problema escatológico é indicado pelas palavras ὁ δὲ ὑπομείνας εἰς τέλος οὗτος σωθήσεται, “aquele que perseverar até o fim será salvo”, palavras que aparecem novamente literalmente no 24.13. O ponto da declaração é claro: aquele que resiste fielmente a essa perseguição εἰς τέλος, “no final” (por exemplo, o fim da vida da pessoa ou o fim da perseguição e saraiva e o fim dos tempos), será salvo (veja 4 Esdras 6.25; 9.7-8; 2 Timóteo 2.12) e entrará finalmente dentro da prometida paz para a participação no Reino.
23 ὅταν δὲ διώκωσιν ὑμᾶς ἐν τῇ πόλει ταύτῃ φεύγετε εἰς τὴν ἑτέραν• ἀμὴν γὰρ λέγω ὑμῖν, οὐ μὴ τελέσητε τὰς πόλεις τοῦ Ἰσραὴλ ἕως [ἂν] ἔλθῃ ὁ υἱὸς τοῦ ἀνθρώπου.
Os discípulos são aconselhados a fugirem da perseguição de uma cidade para outra (compare ἀπὸ πόλεως εἰς πόλιν, “de cidade para cidade,” 23.34; compare 24.16; Atos 8.1; 14.6). As seguintes declarações constituem um dos mais difíceis desafios para os intérpretes de Mateus. Um problema similar emerge em 16.28 e 24.32, os quais eventualmente podem lançar luz sobre a passagem em apreço, embora cada passagem deva ser manuseada por si própria dentro de seu contexto. É preferível uma explicação que faça coerente todas as três passagens. O presente versículo teve mais aparentemente um dito original separado (então correto Kümmel), e foi colocado aqui pelo evangelista porque este era apropriado. Faz pouca diferença se οὐ μὴ τελέσητε τὰς πόλεις τοῦ Ἰσραήλ, “vocês não completarão em todas as cidades de Israel” (isto pode duramente significar evangelismo para os judeus através de todos os tempos, tornando assim o ponto irrelevante para aqueles que primeiro ouviram estas palavras), ou “vocês não utilizarão todas as cidades disponíveis para fugir (da perseguição)”. Outro caso também envolve uma limitação de tempo, por exemplo, o Filho do Homem virá e trará aquela situação para o fim, assim trazendo conforto e esperança para aqueles que estão sendo perseguidos. O ponto crucial é referido pelas palavras ἕως ἂν ἔλθῃ ὁ υἱὸς τοῦ ἀνθρώπου, “até que o Filho do Homem venha”.
Pelo menos três possibilidades podem ser mencionadas: (1) a parousia ou vinda do Filho do Homem, por exemplo, o início da eschaton; (2) a destruição de Jerusalém, por exemplo, o julgamento do Filho do Homem sobre Israel; ou (3) alguma marcante experiência do poder do novo tempo, tal como a morte ou a ressurreição de Jesus, o derramamento do Espírito Santo em Pentecostes, ou mesmo o sucesso das missões aos gentios, ou a combinação desses. A primeira possibilidade, a qual tem mais vantagem de ser o entendimento mais natural da cláusula (compare 24.30, citando Daniel 7.13-14), normalmente deve ser preferida. Neste caso Jesus assume que a parousia irá ocorrer não no tão distante futuro, uma visão que é teologicamente justificável (por exemplo, o advento do reino implica a proximidade das novas do própria escathon), mas como nós sabemos (e talvez os leitores de Mateus também soubessem) tem provado ser historicamente errada. No entanto, se a visão alternativa que está sendo mencionada, deve finalmente ser observada como insatisfatória, a primeira possibilidade pode continuar a ser mais atraente, tomando em conta a total humanidade de Jesus e sua própria confissão sobre desconhecer o tempo de sua parousia (24.36). Por outro lado, as outras possibilidades não devem ser descartadas tão rapidamente. Künzi, quem optou pela visão escatológica, ainda encontra valor nas interpretações não escatológicas da frase. A destruição de Jerusalém (70 A.D.) pode possivelmente já ter ocorrido quando o evangelho foi escrito e pode ter sido entendida como um julgamento trazido pelo Filho do Homem. Esta interpretação tem a vantagem de ligar a declaração do versículo 23b intimamente com o mandamento do versículo 23a: quando os discípulos encontraram hostilidade e rejeição do evangelho, eles não se moveram sobre a próxima cidade para completar a missão à Israel antes de muito tarde (compare 7.6). No entanto, o que está em vista é o quadro de tempo já encontrado em 10.5–6; isto é, durante o tempo de Jesus o foco da missão é sobre os judeus, mas depois da ressurreição de Jesus e a experiência do Espírito em pentecostes, o foco da missão irá rapidamente se mover para os gentios. A igreja de Mateus conhece que isto existe no tempo predito por Jesus, quando os gentios devem ter ouvido e respondido à mensagem do evangelho; provavelmente não tiveram, no entanto, continuado a evangelizar os judeus (veja em 28.19). Se Jesus realmente contemplou um tempo para vir quando o evangelho deve ter ido ser pregado aos gentios, é improvável que sua referência à vinda do Filho do Homem signifique a parousia, desde que este evento ocorre antes do fim da missão para os judeus (McNeile observa isto como “impossível”). Carson corretamente observa que “na vinda do Filho do Homem em Mateus, existe o mesmo rico campo semântico que ‘a vinda do Reino”’.
Neste contexto, a mais natural interpretação do 23b é a seguinte. O γάρ, “pois”, liga as sentenças intimamente com a sentença precedente, oferecendo o fundamento ou a razão para fugir, e assim as duas sentenças devem ser entendidas juntas. οὐ μὴ τελέσητε τὰς πόλεις τοῦ Ἰσραήλ, “vocês não irão completar em todas as cidades de Israel”, refere-se também à esgotar as cidades que podem ser usadas para refúgio da perseguição ou para completar a tarefa de evangelização, ou ambas (uma vez que a primeira implica a última). Em suma, a missão para Israel – a específica missão referida no versículo 6 e não uma aberta missão para os judeus em um futuro indeterminado – não será concluída antes que ἔλθῃ ὁ υἱὸς τοῦ ἀνθρώπου, “venha o Filho do Homem”. O significado clássico da vinda do Filho do Homem, como, por exemplo, encontrado em 17.27-28 e 24.30, invoca Daniel 7.13-14 e refere ao final do presente tempo e a parousia, ou segunda vinda de Jesus. Mas nós podemos dificilmente aceitar que o significado aqui, uma vez que Mateus nos diz em muitos outros lugares sobre uma missão aos gentios, que deve tomar lugar antes do fim dos tempos (compare 21.43; 24.14). Isto é, a missão para Israel não pode ser interrompida pela parousia antes da conclusão sem uma necessária negação de um importante fio de material inequívoco no evangelho (veja também especialmente 28.19). Assim a vinda do Filho do Homem aqui deve se referir à alguma coisa mais. Provavelmente nós devemos descartar a interpretação da frase como significando “até eu [por exemplo, ‘o Filho do homem em um não titular sentido como simplesmente um circunlóquio para ‘eu’] junto você” nomeadamente, umas poucas semanas ou meses depois (a menos que tal declaração inócua fosse algo incompreendido pela igreja). Isto é, além disso, não há nenhuma evidência de perseguição do grau referido no 23a nesse cedo momento. Isto deixa a possibilidade de uma mais dramática “vinda do Filho do Homem” e na ressurreição de Jesus, na vinda do Espírito em Pentecostes, ou no poder e sucesso da missão para os gentios. As duas primeiras possibilidades novamente parecem demasiado cedo para a experiência da perseguição, e a última seja talvez demasiado nebulosa. A possibilidade final, e a melhor de todas, é que a frase se refira à vinda do Filho do Homem no julgamento da destruição de Jerusalém em 70 A.D. Três pontos importantes argumentam a favor desta conclusão: (1) a destruição de Jerusalém pré-figura e é tipológicamente relacionada ao julgamento final (veja o capítulo 24) e, por tanto, também pode ser vista como a obra do Filho do Homem (compare 24.27-31); (2) a destruição de Jerusalém simboliza a rejeição do evangelho pelos judeus e assim a mudança da história da salvação, a partir dos judeus para os gentios, o antigo perde a sua prioridade; e (3) a abundante evidência da perseguição judaica aos cristãos antes de (bem como depois) A.D. 70. De acordo com esta interpretação, o significado do verso 23b vem a ser o seguinte: Esta missão exclusiva dos doze à Israel, a qual reflete em sua história da salvação, prioridade sobre os gentios, não vai chegar à sua conclusão antes de ser interrompida pela vinda do Filho do Homem em julgamento sobre Jerusalém, simbolizando assim o quadro de tempo em que os gentios, ao invés dos judeus, assumem a prioridade no propósito de Deus. A missão para os judeus, refletindo seu lugar na história da salvação, assim, tem um tempo limitado, o fim do qual (mas não fim do evangelismo dos judeus) será acentuado pela vinda do Filho do Homem em julgamento sobre israel.
Explanação
A estranheza desta nova ênfase sobre a perseguição, sofrimento, e até a morte de muitos que proclamam o cumprimento da promessa, as boas novas do reino, é notável. Há uma incongruência acentuada, o que sem dúvida pressionou-se sobre os discípulos. Como poderia uma mensagem de alegria e poder, se fosse verdade, ser compatível com as coisas que os discípulos eram orientados a esperar? Os discípulos, como as igrejas de todos os tempos, tinham aprendido sobre o presente como um tipo de período de transição, uma realização, ainda de curta consumação, em que o sofrimento estava sendo conquistado, mas ainda claramente experimentado. No entanto, eles são enviados por Jesus, e o Espírito de seu Pai irá fornecer qualquer defesa que possam necessitar. Isto é, por um lado, nenhum heroísmo carnal aqui, sem complexos de martírio – eles estão sendo astutos e fugindo. Sim, por outro lado, há um chamado à resistência. Estes que resistem irão finalmente receber a completa e perfeita benção que é escatológicamente chamada salvação, a perfeita e última shalom (bem-estar definitivo). A benção a qual os discípulos experimentam em suas missões será experimentada por todos os mensageiros do evangelho no final dos tempos (compare capítulo 24).
Marcadores: Exegese Novo Testamento







